Polícia apura vazamento de 'selfie' de atirador durante sequestro em hotel

Mensageiro usou colete falso de dinamites por quase oito horas. Preso pelo crime disse estar insatisfeito com o atual cenário político.

Foto mostra atiradores de elite que atuaram em
sequestro em hotel do DF (Foto: Reprodução)
A Polícia Civil do Distrito Federal investiga o vazamento de “selfie” feito por um atirador de elite enquanto um homem mantinha o mensageiro do hotel Saint Peter refém na segunda-feira (29). O funcionário passou quase oito horas sob a mira de uma pistola de brinquedo e usando um colete falso de dinamites. O sequestrador se entregou no final da tarde e está preso na carceragem do Departamento de Polícia Especializada. 

Na imagem é possível ver o policial em cima de um prédio vizinho ao qual ocorria o crime, enquanto, no fundo, um colega está posicionado com a arma. De acordo com a corporação, a foto tinha a finalidade de verificar a posição de atiradores. “Isso é usado com fins de treinamento interno, para estudar as posições e definir estratégias em novas situações, mas não tem cabimento espalhar isso”, disse o delegado Paulo Henrique de Almeida. 

Ainda segundo a polícia, a Divisão de Operação Especiais investiga o caso. O inquérito será encaminhado à Corregedoria, que deve apontar os responsáveis pela divulgação do registro e eventualmente puni-los.

Horas de pânico 

Os cerca de 300 hóspedes do hotel Saint Peter foram orientados a deixar o prédio, depois que o sequestrador fez o refém e anunciou um "ataque terrorista". Foram mais de sete horas de cativeiro. Por diversas vezes, o sequestrador e o refém apareceram na sacada do apartamento, localizado no 13º andar do hotel.O mensageiro aparecia com as mãos algemadas. Já perto do fim da ação, o sequestrador e o funcionário do hotel apareceram com os pulsos unidos pelas algemas. 

O mensageiro já estava já sem o colete com as supostas dinamites. Durante todo o tempo que durou o sequestro, atiradores de elite da Polícia Civil foram posicionados em prédios próximos ao hotel e aguardavam orientação para abater o sequestrador. Durante o sequestro, a polícia trabalhava com uma chance de 98% de que os explosivos fossem verdadeiros. 

A todo tempo, Souza mostrava aos policiais que estava em posse de uma arma, que também se revelou ser falsa. Antes de se render, o homem entregou um CD com uma gravação em que pedia desculpas aos brasileiros “que foram prejudicados diretamente ou indiretamente” pela ação e contava que a arma e os explosivos não eram de verdade. 

A ação, segundo Jac Souza dos Santos, foi motivada por insatisfação com o atual cenário político. “Nos tempos atuais somos insignificantes para o governo. Por isso, ele nos subestima, nos trata com total descaso." 

Sequestrador armado mantém refém em sacada de hotel em Brasília; colete da vítima tem objetos cilíndricos que supostamente seriam bananas de dinamite (Foto: André Dusek/Estadão Conteúdo)

O mensageiro, José Ailton de Souza, disse ao G1 estar "com a cabeça muito confusa". Ele, que mora no Novo Gama (GO) e trabalha no estabelecimento há três anos, afirma que não pretende dar detalhes sobre o caso. “Já declarei tudo à delegada”. Segundo o delegado Paulo Henrique de Almeida, o funcionário falou em depoimento que não sabia que a arma e o explosivo eram falsos e que sentiu medo. 

“Ele foi claro em falar com a gente que ele ficou bem amedrontado. Disse: ‘Se eu soubesse que era falso, eu poderia até ter reagido’. Tinha policial por perto, se ele gritasse que não eram verdadeiros seria socorrido na hora.” 

Cartas de despedida 

A Polícia Civil encontrou três cartas na casa do sequestrador, no interior de Tocantins. Nelas, segundo a corporação, ele pedia desculpas pelo que faria e se dizia "desesperado" com o atual cenário político. O amigo Maurílio Martins Araujo, de 30 anos, conta que recebeu uma das cartas. “Ele deixou uma carta para um amigo em comum no sábado para entregar para a mãe dele e para mim. 

A carta da mãe parecia despedida, só loucuras, barbaridades. Para mim, ele deixou a relação de contas para pagar", disse. Maurílio afirmou ao G1 que o colega é uma boa pessoa, e que a família ficou sabendo do caso pela televisão. Amiga da família e chamada de "tia" pelo sequestrador, a dona de casa Alaídes Alves Góis, de 50 anos, disse ainda não ter entendido o que aconteceu. 

Segundo ela, que soube do caso pela TV, a ação não combina com a postura do sequestrador. "Ele é como se fosse um filho para mim, foi criado junto com meu filho. Ele me chama de tia", disse. "A atitude dele é muito desesperadora. Não acredito que vá acontecer, que ele vá fazer nenhuma desgraça. 

Não acho que ele faria isso a alguém. Falei com a mãe dele por telefone. Ela me pediu, pelo amor de Deus, para interceder. Ele me escuta mais que à mãe." Alaídes conta que conheceu a família quando comprou uma fazenda no interior de Tocantins e se tornou vizinha deles. O contato, iniciado em 1987, prossegue até hoje. A dona de casa disse que todos se consideram como sendo "do mesmo sangue". 

Prédio esvaziado

Por causa do sequestro e ameçada de explosão do hotel, os hópedes do Saint Peter tiveram de deixar o prédio logo cedo. O acesso só foi liberado novamente pouco antes das 17h, após a rendição do sequestrador. Entre os hóspédes etava o lutador de MMA Rodrigo Nogueira, o Minotauro. 

Ele e o irmão participaram neste final de semana de um evento esportivo em Brasília. Minotauro disse ao G1 que foi informado que teria de deixar o hotel por causa de um vazamento de gás. "A gente desceu pelo elevador. Lá dentro não ficamos sabendo de nada. A primeira informação foi que estava tendo um vazamento de gás, que era para a gente sair o mais rápido possível." 

O lutador de MMA Minotauro, que estava hospedado no hotel Saint Peter, em Brasília, esvaziado após homem fazer funcionário de refém (Foto: Dayane Oliveira/G1)

O lutador disse que ainda demorou a deixar o Saint Peter porque estava tomando café na hora em que os funcionários estavam indo de quarto em quarto avisar os hóspedes para deixar o hotel. "Quando chegaram ao meu quarto eu tinha saído para tomar café, então quando voltei os quartos já estavam todos abertos, ninguém tinha nenhuma informação.

" A médica Larissa Dourado, que veio para Brasília para participar de um congresso de cardiologia, disse que estava no quarto quando os bombeiros bateram à porta, por volta de 9h30 da manhã, e disseram que era para ela deixar o hotel. "Começaram a bater nas portas dos quartos, chamando a gente, eles se identificaram como bombeiros e disseram que era pra evacuar os quartos. 

Foi supertranquilo, desci de elevador. Não trouxe nada além do meu celular, até meus documentos estão lá dentro", disse.

G1 DF