Erro no cartão do Enem pode prejudicar sabatistas

O que acontece é que o horário conforme preceito religioso não foi respeitada

Estudantes sabatistas de Mato Grosso correm o risco de não realizarem a prova do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), que acontece amanhã (8) e domingo (9), por conta de um erro no cartão de confirmação disponibilizado no início da semana pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), do Ministério da Educação (MEC). A Justiça determinou que a situação fosse resolvida em 48 horas, que se encerraram ontem. 


Acontece que a solicitação de horário especial conforme o preceito religioso, como no caso dos adventistas, judeus e batistas do sétimo dia, não foi respeitada. Esses candidatos preservam o sábado, e por isso, precisam de um horário especial para começar a prova, ou seja, após o pôr do sol, várias horas após o início dos demais candidatos. 



A estudante adventista Lanny Formighieri, 17, é uma das afetadas. Na sua sala de aula, além dela, outras duas pessoas tiveram o problema. A sala conta com apenas 24 alunos. Mesmo com esperanças de que o problema seja resolvido, ela acredita que não fará o Enem neste ano. 



“É um desespero. Não é o meu primeiro Enem, faço desde os 15 anos, quando era do 1º ano do Ensino Médio. Justo no que vale, que é o direto do 3º ano, acontece isso. Estou orando para que tudo se resolva”, disse a estudante, que busca uma vaga no curso de Engenharia Civil. 



O problema para Lanny é ainda maior diante do investimento de preparação. “Além do colégio, fiz cursinho no [colégio] Master e curso de redação. Ou seja, foi um investimento grande”, explicou. 



A situação é a mesma com a estudante Jade Miralha, 17, também adventista. Ela e a mãe fizeram a inscrição com o pedido especial, mas só a mãe foi atendida. “Ela se inscreveu para me dar apoio moral. Como eu não vou fazer, ela provavelmente não vai também”, disse. 



A mãe de Lanny e outros sabatistas vão realizar a prova no Grande Templo, na avenida do CPA. Já o da estudante, conforme o cartão de confirmação, será na Universidade de Cuiabá (UNIC). “Por enquanto, como não tem nada resolvido, não vou fazer a prova”, afirma. 



Para ela, a questão é de valores e princípios. “Não vou passar por cima disso [crença]. Se não der, paciência, tento ano que vem”, finalizou. 



PÔR DO SOL – Conforme as regras do Inep, os sabatistas devem chegar aos locais de prova no mesmo horário dos demais candidatos, às 13 horas. Confinados nas salas, eles só podem começar o exame após o pôr do sol. 



Para as estudantes, é uma questão de bom senso e respeito pelos organizadores. Jade acredita que se há uma lei de liberdade religiosa existente no país, ela deve ser respeitada. “É cansativo esperar todo esse tempo e depois encarar uma prova extensa. Já começamos em desvantagem” diz, mas ressaltando que esse é o menor problema, mas que merece ser revisto. 



Lanny também exalta a liberdade religiosa. “Se é sabido que muitos guardam o sábado, porque não podem mudar as datas ou ter mais cuidado com essas pessoas?”, se questiona. 



Ela ainda cita o Enem para pessoas privadas de liberdade, que neste ano acontece domingo (09) e segunda (11). “Os detentos fazem em dias que seriam excelentes para nós, por exemplo. Por que isso não pode ser aplicado aos sabatistas?”, finaliza. 



NA JUSTIÇA – O advogado Celso Correa, de Cuiabá, está cuidando do caso das estudantes e de outros. Segundo ele, a justiça concedeu uma liminar aos sabatistas, para que não passem por cima de seus preceitos religiosos. Réu no processo, o Inep teria até 48 horas para resolver a situação. Porém, até ontem nada foi feito. 



O Diário entrou em contato com o Inep, e foi informado de que os problemas estão sendo resolvidos de forma individual, pois a situação não é generalizada.

DIARIO DE CUIABÁ

Comentários