Delator conta como pagou propina a Eder Moraes - Veja o vídeo

Celly Silva, repórter do GD

Entre 2006 e 2007, a Construtora Norberto Odebrecht (CNO) teria pago R$ 12 milhões em propina ao então presidente da MT Fomento, Eder Moraes, à título de “contribuição à campanha de reeleição do então governador Blairo Maggi (PP) e em troca do recebimento de R$ 50 milhões relativos a débitos atrasados pela construção da MT-010 em gestões anteriores.
Otmar de Oliveira
É o que relatou ao Ministério Público Federal (MPF) o ex-executivo da companhia Pedro Augusto Carneiro Leão Neto, em delação premiada firmada em dezembro do ano passado, cujo vídeo veio à tona somente neste ano.
Conforme o Gazeta Digital já adiantou em matérias anteriores, aos procuradores, Pedro Leão contou que, inicialmente, procurou, em 2003, o então secretário de Infraestrutura Luiz Antônio Pagot para cobrar a dívida de R$ 50 milhões do Estado com a empresa. Por falta de verba, somente em 2004, durante outra reunião com Pagot, Blairo e Eder é que o executivo soube da possibilidade de pagamento caso a União indenizasse Mato Grosso por gastos previdenciários oriundos da época da divisão territorial.
Já em 2006, quando esses repasses federais começaram a ocorrer, Pedro Leão afirma que foi procurado por Eder Moraes, que teria dito que o Estado estava disposto a quitar o débito com a Odebrecht, mas que para isso, teria que haver uma “contribuição para o grupo político do governador Blairo Maggi no valor de R$ 12 milhões”, conforme o delator.
Esquema acordado
O caso foi levado ao chefe de Leão, o executivo João Antônio Pacífico, que autorizou o pagamento da propina através do Departamento de Operações Estruturadas, que era um setor que fazia pagamentos fora da contabilidade oficial da empresa. Este era também o setor responsável por apelidar as pessoas que recebiam vantagens indevidas da Odebrecht e que, segundo Leão, apelidou o governador Blairo Maggi de “Caldo”.
“O apelido lá da operação no Mato Grosso era Caldo. Não éramos nós que dávamos esses apelidos, era o grupo das Operações Estruturadas, eles é que davam esses apelidos, e eu até entendo que não podia ser a gente porque eu só sabia daquele grupo que eu sabia, tinha muita gente. Senão, daqui a pouco estava todo mundo dando o mesmo”.
Questionado pelo procurador se esse apelido realmente se tratava do ex-governador, já que as tratativas eram feitas com Eder, Pedro Leão afirmou que sim. “Eu acho que tinha toda lógica porque o caldo vem daquela coisa do nome da família Maggi, Blairo Maggi, né. Mas eu não tenho como afirmar, mas, com certeza absoluta, e é certeza porque o Eder participou comigo da conversa com a presença do governador e com a presença do Pagot. E depois de um certo tempo, quando começou a decisão de pagar aOdebrecht, o Eder apareceu, fez referência a reunião anterior que tinha tido com o governador e fez o pedido da contribuição para a campanha”, relatou.
Reprodução

Um dos delatores da Odebrecht na operação Lava Jato, Pedro Leão 
Pagamentos em São Paulo
De acordo com Pedro Leão, toda vez que o Estado liberava uma parte do pagamento da dívida de R$ 50 milhões à Odebrecht, ele fazia a programação financeira para que a propina também fosse paga a Eder Moraes ou a uma pessoa indicada por ele. Os pagamentos eram feitos sempre em dinheiro vivo, na cidade de São Paulo (SP).
“Feita a programação, recebido o recurso do estado, eu fazia a autorização do pagamento para o Eder ou uma pessoa que ele definisse através de um apelido (...) Ele ia a São Paulo ou o preposto dele ia a São Paulo. Eu também não sei quem ia, mas era dado a ele a senha e o endereço de onde ele buscar, em que operador, em que doleiro ele ia buscar o recurso que estava liberado”, relatou Pedro Leão ao MPF.
Esse esquema estava previsto para terminar em 2008, mas teria perdurado entre 2006, ano da campanha de reeleição de Blairo Maggi e 2007, conforme o delator. “No planejamento nosso foi 2007 e 2008. Mas 2006 foi campanha dele, estava em campanha novamente em 2006, que foi quando o Estado começou a receber da União. Fiz pagamento em 2007 e 2008 não tenho pagamento, não consigo lembrar”, disse o executivo.
Questionado se apesar dos pagamentos serem feitos a Eder Moraes, Blairo Maggi era realmente beneficiário da propina, Pedro Leão confirma. “Sim, o governador e seu grupo político (...) Pra ser mais claro, o pagamento foi feito através do Eder ao grupo político do Blairo Maggi. Pra esse fim específico, não era o Pagot e nem era diretamente o governador”, explicou.
                     
Saldo liquidado
Ao final do esquema, Leão afirma que nenhum valor ficou pendente de nenhum dos lados. “Os R$ 12 milhões foram efetuados. Eu não tenho todos os documentos, eu não consegui levantar todos, mas nós não ficamos com nenhuma dívida, nem o Estado nos deve nem nós devemos ao Estado, recebemos todos os valores”.
Outro lado
A assessoria de imprensa do ministro Blairo Maggi informou ao Gazeta Digital que a respeito das acusações no âmbito da operação Lava Jato, ele mantém sua postura de afirmar inocência e negar relação com a Odebrecht ou seus dirigentes. Ele também nega que tenha recebido doação da companhia ou que tenha autorizado alguém a fazer esse pedido em seu nome. Blairo já entregou às autoridades os documentos relativos aos pagamentos realizados à construtora na época de seu governo a fim de provar sua inocência e aguarda o prazo da Justiça para o esclarecimento do caso.
A defesa jurídica de Eder Moraes, representada pelo advogado Ricardo Spinelli, informou , por meio de nota enviada ao Gazeta Digital, que seu cliente nega as acusações e que recebeu com surpresa a notícia pela imprensa, uma vez que jamais teria mantido contato com os executivos da Odebrecht, além de não ter exercido cargo na campanha eleitoral de Blairo em 2006. A defesa diz que vai aguardar ser notificada para se manifestar nos autos.
Confira a nota na íntegra:
Eder de Moraes nega as acusações, sendo que recebeu a notícia com surpresa, uma vez que jamais teria tido contato com executivos da Odebrecht e também porque não exerceu qualquer atividade na campanha eleitoral de Blairo Maggi, em 2006.
À época, Eder não exercia cargo de secretário de Estado, mas sim de presidente do MT Fomento e que não possuía poder para tratar de assuntos ligados à arrecadação de campanha.
Vamos aguardar a notificação formal para se inteirar melhor da acusação e dos elementos dos autos.

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