Médica diz ter ouvido “relatos terríveis” de sentimento de culpa


BIANCA FUJIMORI
DA REDAÇÃO
A médica infectologista Kadja Leite, que atua em três unidades médicas de Cuiabá, diz que tem sido comuns os relatos de familiar que furou a quarentena obrigatória, contaminanou membros da família e depois se sentiu culpado.

Ela conta que há casos em que a pessoa participa de festas, mesmo sendo proibidas na Capital, com dezenas de convidados e leva o coronavírus para dentro de casa.

As consequências do ato irresponsável, como a infectologista define, tem sido familiares morrendo em decorrência da doença.

“Temos relatos terríveis da pessoa que se expôs, teve a doença leve, levou para casa e os familiares morreram”, afirma a médica, que atua na Clínica Femina, no Hospital Geral e no Metropolitano.

Depois disso, conforme a especialista, fica o sentimento de culpa. “As pessoas estão lidando com a culpa também, a culpa de não ter respeitado, de não ter aceitado a quarentena, de ter se exposto e levado [o vírus] para casa”, explica Kadja.

Isso acontece, segundo ela, porque parte da população cuiabana não acredita na gravidade da pandemia até que alguém próximo seja uma das vítimas.

“Temos que ter consciência e entender que é muito grave e a gente está no momento pior da crise”, alerta.
  
Confira os principais trechos da entrevista:

MidiaNews - Como tem sido esses quatro meses de trabalho contra a pandemia da Covid?

Kadja Leite - A primeira etapa foi de treinamento das equipes para uso de EPI, como tirar, como usar o EPI sem se contaminar. Depois a gente teve um período complicado de falta de EPI porque a doença surgiu no Brasil no momento em que tinha pico na Europa. A gente acabou tendo que adequar algumas situações, buscar EPIs alternativos, começar a reaproveitar algumas coisas que a gente não reaproveitava, buscar reprocessamento. Foi um cenário difícil. Outro momento foi a mudança de estrutura. Quando se cria uma UTI Covid, por exemplo, precisa de sistema de antecâmara, reunião com engenharia, arquitetura, para criar pressão negativa, colocar exaustor em algumas áreas para melhorar a segurança, mudar o fluxo de pacientes, dividir enfermaria, criar alas exclusivas para Covid. Nas unidades de pronto-atendimento também criar recepções exclusivas, consultórios exclusivos, áreas de atendimento exclusivas. Foram meses de trabalho contínuo e, de acordo com a demanda, a necessidade muda. Se você cria uma recepção pequena, um pronto-atendimento que recebe 10 pacientes por dia, de repente tem uma demanda de 100 e faz tudo de novo, muda novamente.

Outra dificuldade grande foi em relação a profissional de saúde. Muitos adoeceram, o afastamento da doença é longo. Então trabalhar com a equipe reduzida, com a equipe estressada e com necessidade constante de contratação. Todo dia a gente tem contratado, tem acionado várias pessoas para contratar e a gente sempre está com dificuldade, sempre com plantões faltando, com poucos profissionais porque o índice de adoecimento é muito alto, as pessoas ficam muito expostas e acabam adoecendo. É uma doença muito dinâmica e conforme vai mudando nosso cenário epidemiológico, as necessidades dentro do hospital vão mudando.

MidiaNews - Chegou a contrair a doença?

Kadja Leite - Eu não fui e nem minha família. Mas muitos colegas sim. Os colegas que trabalham no pronto-atendimento estão muito expostos, os colegas que estão na UTI também. Há vários fatores, cuidados pessoais mesmo. A gente sempre orienta, tem vídeos educativos orientando a limpar o local de trabalho, o celular, até o cuidado na hora de tirar e colocar a máscara. A gente usa a máscara por 12 horas e amanhã tenho que usar de novo. Então com certeza ela está contaminada. Se eu não tirar da forma correta, se eu não armazenar da forma correta e se eu não colocar ela direito no dia seguinte, sem contaminar a parte interna, pronto. Se não tiver esse cuidado, você acaba se contaminando.

MidiaNews - Como está fazendo para se proteger e proteger seus familiares?

Kadja Leite - Eu tenho álcool no carro, toda vez que eu saio do hospital eu passo álcool em tudo e quando saio do carro também. O celular também limpo toda hora. Toda roupa que uso de manhã coloco para lavar, tomo banho na hora do almoço. Só entro em casa depois de tomar banho e à tarde é a mesma coisa. Entro pelo quintal, tomo banho no banheiro de serviço, só entro em casa depois disso. Então não tenho contato com ninguém antes de tomar banho e eu mesma lavo a roupa que uso no hospital todos os dias para não deixar acumular. A minha família tem essa possibilidade, nós temos dois carros. Então o carro que eu vou para o hospital ninguém usa para outra coisa, só eu. São estratégias que a gente cria para minimizar. A gente tem ido o mínimo possível no mercado e quando chega lava tudo que é possível e que o não é a gente passa água sanitária em tudo. Legumes, frutas e verduras ficam em imersão com água sanitária. Para cada dois litros de água, uma colher de sopa de água sanitária. Evitamos sair. As crianças estão presas desde março, saíram pouquíssimas vezes por situações de necessidade e é o que a gente tem feito para evitar o contágio.

MidiaNews - A falta de medicamentos também tem afetado seu trabalho?

Kadja Leite - Por conta do aumento de leitos de UTI, que não é uma demanda só nossa, alguns medicamentos como para sedação tem faltado no planeta todo. Não é muito uma demanda minha. Quem está mais na linha de frente com o paciente da UTI é o intensivista. Então eles têm sentido mais na pele. Em alguns hospitais tem faltado sim medicamentos para sedação.

MidiaNews - Há muitas notícias de casos de Covid entre membros de uma mesma família. A senhora também tem notado isso no dia a dia?
  
Kadja Leite - A gente tem observado com frequência desde o início da pandemia. Como é um vírus com o qual nós nunca tivemos contato, a gente não tem resposta imune contra ele. Além disso, é altamente contagioso, a capacidade de transmissão é muito alta. Quando você tem uma família onde as pessoas convivem muito próximas, o próprio falar, tossir, espirrar... a chance de transmissão é muito alta. No final das contas, de uma pessoa, inúmeras acabam contaminadas. Mas ainda é válida a orientação de isolamento domiciliar. Eu já tive casos de isolar a pessoa 14 dias no quarto, não abrir a porta para nada, passar comida pela janela e ninguém pegou. São cuidados extremos. A pessoa vai ficar 14 dias sem sair do quarto. Dá para compartilhar algum cômodo da casa se a pessoa tomar banho antes de sair do quarto, ficar na sala em uma cadeira exclusiva para ela, ideal que seja de plástico para limpar depois, tem que ficar de máscara e pelo menos a dois metros de distância. É possível evitar a transmissão domiciliar, mas é bem difícil.

MidiaNews - A senhora tem atendido muitos idosos que contraíram doença desta forma, dentro de casa?

Kadja Leite - A gente percebe que nesse cenário de pandemia, eles têm se exposto menos. Claro que tem aqueles que acabam insistindo, muitos duvidam que a doença existe, só acreditam porque morreu um parente. Se tem alguém trabalhando, fica indo e vindo, a transmissão para o idoso vai ser por aí. Se a pessoa que trabalha não toma os devidos cuidados de higiene quando chega, acaba contaminado o ambiente ou até mesmo adoecendo.

MidiaNews - O que a senhora teria a dizer para estas pessoas que desrespeitam a quarentena e se aglomeram em festinhas nos finais de semana?

Kadja Leite - Nós chegamos em um momento crítico da infecção no Estado. Não temos mais leitos de UTI. Há alguns dias atrás a fila na central de regulação pelo SUS era mais de 100 leitos de UTI, ou seja, 100 pessoas no Estado precisando de leito de UTI e não tem. Na rede privada também não tem mais leitos. Leitos estão sendo criados transformando enfermaria em UTI e não tem mais para onde crescer. A gente sabe que a doença pode ser com poucos sintomas para algumas pessoas, mas a gente não sabe quem, é uma loteria. Não sei se quando eu pegar, se eu pegar, vou ter um quadro leve ou grave. É um comportamento de alto risco, é um comportamento irresponsável. Não é uma invenção, é uma coisa que o mundo todo está vivendo. Se a pessoa não tem capacidade de entender a gravidade disso, é muito grave. A gente tem que refletir. Temos relatos terríveis da pessoa que se expôs, teve a doença leve, levou para casa e os familiares morreram. As pessoas estão lidando com a culpa também, a culpa de não ter respeitado, de não ter aceitado a quarentena, de ter se exposto [ao vírus] e levado para casa. Ninguém quer sentir isso também. Temos que ter consciência e entender que é muito grave e a gente está no momento pior da crise.


MidiaNews - Uma das constatações de médicos é que a Covid não afeta apenas os pulmões.  Que outros órgãos são comumente afetados pela doença, segundo sua experiência?

Kadja Leite - A gente tem entendido que é uma doença sistêmica mesmo. Ela entra pelo pulmão, assim como a tuberculose, cai na corrente sanguínea e pode causar lesão em qualquer lugar. Tem pacientes com lesão de pele, secundárias ao coronavírus. Ela pode causar encefalite, que é uma inflamação encefálica. A própria alteração de olfato e paladar que muitos pacientes se referem é um sintoma neurológico. A gente tem constatado também que muitos pacientes ficam com dor de cabeça. Passa tudo, mas a dor de cabeça não vai embora. Tem tido sim cefaleia pós-covid. Há alguns relatos de hidrocefalia, que é um aumento da quantidade de líquido cerebral. E tem que desviar esse líquido porque estava causando hipertensão intracraniana. De fato é uma doença sistêmica e pode comprometer qualquer órgão.

MidiaNews - O governador Mauro Mendes afirmou que faltam médicos para abrir UTIs. Isso tem afetado o seu trabalho?

Kadja Leite - Em UTI que é para ter dois médicos, um está doente, por exemplo, e está um sozinho cuidando de 30 pacientes. Alguns serviços têm tentado abrir mais UTI, mas temos realmente essa dificuldade porque são poucos pacientes que ficam na enfermaria, que são de manejo clínico mais fácil. Os pacientes de UTI precisam de cuidados específicos e a gente precisa desse especialista, que é o intensivista. A gente não tem esse número tão grande no mercado e às vezes até tem, mas esse profissional é idoso, cardiopata, tem alguma doença crônica e não quer se expor. Existe a dificuldade de várias formas.

MidiaNews - A gente percebe que muitos pacientes que recebem alta saem bastante debilitados do hospital. Como é feito o acompanhamento após a pandemia?

Kadja Leite - Depende do serviço. Eu tenho recebido no consultório alguns pacientes que têm alta e precisam de acompanhamento. Eles mantêm falta de ar, cansaço, sensação de falta de energia. Às vezes o paciente tem doença pulmonar que fica mais descompensada. Mas varia muito de hospital para hospital. Não sei como está sendo na rede pública essa demanda. Acredito que sejam as unidades básicas de saúde que estão acolhendo esses pacientes que necessitam de atendimento pós-alta. Mas na
rede privada a gente tem absorvido.



MidiaNews - Como a senhora projeta que possa ser os próximos meses?

Kadja Leite - A gente entende que quando chega nesse cenário mais complicado, ele se estende por pelo menos 30 dias. A gente pode ter esse dificuldade de leito mais um mês. Depois vai estabilizando a taxa de transmissão. Como a gente não tem vacina, em todo mundo foi assim e vai ser aqui também, vai diminuir o número de casos e de repente tem um “boom” de novo. Pequenos picos, não um número tão grande como é agora. A gente vai ter esse cenário de doença por muitos meses ainda.

Fonte: Mídia News

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